Crônicas

As cortinas do meu infinito

Já cantava minha mui querida Rita Lee — Baila comigo — lá no meu esconderijo.

O meu.

Secretíssimo.

Um canto feito de flores antigas, perfumes esquecidos e aquela luz dourada das tardes de outono. Raios que atravessam as frestas das cortinas voadoras e transformam minha janela em portal.

Um portal para o infinito.

Mas não um infinito qualquer.

O meu infinito.

Aquele que mora dentro de mim.

É ali que reparto com minha criança interior o sabor das balas puxa-puxa compradas à beira da estrada. É ali que ainda sinto o arrepio ingênuo dos primeiros corpo a corpo nas aulas de dança.

É ali que sonho amores embalados pelos LPs que giravam na vitrola — riscadinhos, teimosos, repetindo às vezes a mesma frase —, mas perfeitos para um coração que ainda estava aprendendo a amar.

Nesse túnel do tempo, as imagens não envelhecem.

Vejo as hortênsias do jardim nas manhãs frias de inverno.

O telefone preto de parede ecoando pelo corredor.

O DKW saia e blusa do meu pai dobrando a esquina.

A coleção de Agatha Christie da minha mãe, guardada como tesouro, esperando que alguém abrisse mais uma história.

E eu abro.

Abro todas.

Porque memória é assim: uma porta que nunca termina de abrir.

E, na hora H, quando o tempo parece esquecer de passar, reencontro aquela menina.

Tranças brancas.

Bochechas coradas.

Deitada na grama, tomando banho de sol, esperando o pão doce do lanche.

Um domingo que não termina.

Um domingo guardado para sempre atrás das minhas cortinas.

E bailo.

Bailo porque a cadência me aquece como um ventre generoso, onde tudo recomeça.

Bailo porque há músicas que não envelhecem.

Porque há lembranças que não pedem licença para voltar.

Porque, às vezes, precisamos apenas fechar os olhos para que o tempo recue.

E ele recua.

Volta pelas frestas da janela, atravessa as cortinas, espalha pelo quarto o perfume das flores antigas e me devolve aquilo que eu julgava perdido.

A menina.

A mulher.

As duas, por um instante, cabem no mesmo corpo.

Do fundo do meu esconderijo — semente que adormece antes da primavera — escuto então um eco.

Ele responde no mesmo diapasão.

E vem chegando devagar.

Não sei se é memória, música, desejo ou simplesmente a vida chamando de volta.

Mas ele vem.

E então baila comigo.

Como se baila na tribo.

Íntimo.

Ancestral.

Inevitável.

E, enquanto as cortinas se movem com o vento, percebo que talvez meu esconderijo nunca tenha sido um lugar.

Talvez tenha sido sempre isso: um pequeno infinito guardado dentro de mim, onde a menina ainda dança e o tempo, por alguns instantes, não tem permissão para entrar.

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Ana Helena Reis

Ana Helena Reis é paulistana, pesquisadora e empresária, com extensa produção de textos acadêmicos. Em 2019 começou a se dedicar à escrita literária e à ilustração de seus textos em prosa: contos, crônicas e resenhas, relacionados a fatos e situações do cotidiano. Publica em seu blog, Pincel de Crônicas, em coletâneas, e revistas eletrônicas. Em 2024 lançou seu primeiro livro solo, Conto ou não conto, pela editora Paraquedas/Claraboia, e, em Espanhol, Inquietudes Crónicas, pela editora Caravana/Caburé.

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